Histórias de ver e andar
Histórias de ver e andar foi o nome dado pelos árabes às narrativas de viagem, em épocas de descobrir mundos. Mas não é necessário ir longe para mudar de horizonte: o desconhecido mora ao lado, e também dentro da nossa porta. Reconhecê-lo – ou não – depende do modo de ver. E do modo de andar.
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«No fim de cada um destes contos descobriremos que a vida, a nossa própria vida, não estava exactamente no lugar que pensávamos. […] Teolinda sobe as escadas do banal quotidiano para alcançar a câmara escura do ser. […] São catorze contos que nos precipitam em muito mais do que catorze mundos. Porque estes contos atravessam o comum da solidão e do desespero para chegar ao incomum singular da inquietação. E é isso o melhor que se pode esperar da ficção: que nos faça viajar até esse lugar simultaneamente próximo e
longínquo, fervente, obscuro, que escondemos sob o véu social da identidade.»
Inês Pedrosa, Expresso
«A arte de Teolinda consegue o supremo prodígio de dar voz a um mundo interno, que tem a espessura da realidade televisionada (os mesmos lugares‑comuns, os mesmos valores, a mesma lógica) e simultaneamente deixar emergir o outro lado, o lado obscuro, surpreendido nas entrelinhas, nos sonhos, no grão de voz, em pequenos detalhes, que os títulos dos contos põem em evidência (As Laranjas, Natureza Morta com Cabeça de Goraz), e se tornam o elemento iluminador (ordenador) da experiência relatada.»
Linda Santos Costa, PÚBLICO
O que Teolinda escreve lê-se, primeiro, de um só fôlego, com a entrega autêntica de quem se deixa levar pela música. Toda a gente é convidada a entrar nos seus livros; Teolinda tem sempre o cuidado de polir as frases até ao máximo denominador comum de luz...porque a arte poética da depuração é um elemento fortíssimo no seu trabalho. Os seus livros possuem, por conseguinte, uma larga e luminosa porta de entrada – e um labirinto sem limites deportas de saída. Teolinda trabalha com o caos interior da natureza humana, pelo que exige do leitor algo muito mais difícil do que cultura e erudição: exige essa coisa frágil e sangrenta a que se chama alma, ou, se preferirmos, inocência. Porque tem
o talento de nos dar a ver cada tonalidade da mais íntima noite de cada ser.Inês Pedrosa, Revista LER
“E, no entanto, apesar da voluntária claridade ou simplicidade imediata, do discurso oral destes contos que nos reservam amiúde o inesperado, o efeito de surpresa das melhores histórias curtas, lá está toda a complexidade da vida e de cada alma-anima fugaz que nos mostra, ou fugitivamente fulgura nos interstícios da escrita.”
URBANO TAVARES RODRIGUES -
Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, 2002