As águas livres
São Cadernos espelhados uns nos outros, de algum modo autónomos, embora estejam interligados. Vêm de vários tempos, circunstâncias e lugares (como já acontecia em CADERNOS I - Os guarda-chuvas cintilantes), podem encaixar-se como matrioscas ou fugir em todas as direcções como fagulhas. Formarão, eventualmente, no fim, uma constelação? Não tenho nenhuma certeza. Até porque nunca os poderei dar por terminados, serão sempre um contínuo interrompido, folhas de papel à solta, voando ao sabor do vento, que não me obedecem nem se deixam prender por mim. Pedaços de mundo em que tropeço como se tropeçasse em pedras, que não têm outro sentido para além de existirem, puro acontecer, em estado bruto.
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As Águas Livres é destacada como exemplar de textualidade fluida, simbólica e reflexiva, onde a escrita “além dos limiares… encontra como imagem mais expressiva a líquida: as águas livres, soltas, caudalosas ou finas e insinuantes.” A obra é interpretada não apenas como narrativa, mas quase como laboratório de ficção e metáfora com forte carga simbólica e poética.
ANNABELA RITA, O essencial sobre Teolida Gersao
Teolinda Gersão brinca com o tempo e sentimos um grande prazer nesse jogo.
Sente-se o fascínio da construção do tempo: os acontecimentos sucedem-se, desde
os pequenos episódios, simples e comezinhos, até à consideração da ética e dos valores. Os cadernos espelham-se uns nos outros, autónomos e interligados. Tropeçamos em «pedaços do mundo», de um puro acontecer… E que é a vida e a sua relação com a arte senão esse ligar com os pormenores? Estes cadernos, e os que se anunciam, como método
intercalar, têm um caráter propositadamente ambíguo. São dificilmente classificáveis. São fragmentos, que a romancista experimentada, comprovas dadas, utiliza magistralmente.GUILHERME D’OLIVEIRA MARTINS, E.CULTURA