Crítica, 2/7/2026, Jornal de Notícias, por Sérgio Almeida, jornalista

Janelas com vista para a intimidade

Em “Histórias de ver e andar”, Teolinda Gersão abarca o universal a partir do prisma pessoal

Em 2002, já consagrada por livros como O Silêncio e A Árvore das Palavras, Teolinda Gersão aventurava-se pela primeira vez nos contos, género que, apesar dos cultores exímios, de José Rodrigues Miguéis a Manuel da Fonseca (entre tantos outros), nunca gozou de particular prestígio por cá.

Galardoado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, o livro, cuja nova edição (a quinta) foi publicada recentemente, inauguraria capítulo na obra de Teolinda Gersão centrado nas narrativas curtas: A Mulher que Prendeu a Chuva (2007), Prantos, Amores e Outros Desvarios (2016) e Atrás da Porta e Outras Histórias (2019).

À já reconhecida capacidade de mapear estados de alma com uma precisão quase cirúrgica, acrescentou a autora de O Cavalo de Sol uma contenção narrativa não menos admirável. O resultado traduz-se em 14 contos que partem do quotidiano mais banal para nos oferecerem um olhar demorado e contemplativo sobre vidas que, sendo comuns, se revestem sempre de forte singularidade.

É um autêntico tratado sobre as relações humanas que, ao contrário dos manuais científicos, não pretende chegar a conclusões definitivas, mas tão-só mostrar a(s) matéria(s) de que somos feitos, tantas vezes contraditórias.

Numa dúzia de páginas (por vezes até menos), Teolinda Gersão constrói pequenos mundos autónomos que o leitor é convidado a contemplar, não sem se envolver nos torvelinhos emocionais de quem se encontra, de forma momentânea ou definitiva, num estado de evidente fragilidade.

Em “Noctário”, uma mulher encontra nos sonhos uma realidade alternativa que lhe permite enfrentar os reveses do quotidiano; “Natureza-morta com Cabeça de Goraz” traz-nos a história de um pai divorciado que, durante os breves períodos de permanência com o filho, se dá conta do vazio que é a sua vida; “O Leitor” confronta-nos com um maquinista cujo amor aos livros o faz perder os vínculos com a realidade; “As Cartas Deitadas”, por sua vez, mostra que a vingança deve mesmo ser servida a frio, como reza o provérbio.

Ambientados invariavelmente no lado mais sombrio da existência, todos estes contos são exemplares na forma como expõem a solidão e o desamparo, potenciados por modos de vida inibidores das mais básicas expressões de humanidade.


Histórias de ver e andar
Teolinda Gersão
PORTO EDITORA




Previous
Previous

Next
Next