CARREIRA N. :502, COIMBRA- TEOLINDA
A 47ª Feira do Livro de Coimbra, que decorrerá de 19 a 28 de junho, terá a
escritora Teolinda Gersão como convidada de honra.
Para além das sessões em torno da sua obra, a Câmara Municipal quis
celebrar a escritora: dando como título genérico à Feira, A Árvore das
Palavras; criando um autocarro com o seu retrato e a inscrição “Ouvir era
deixar entrar o mundo em si” (extraída da novela Os Teclados); espalhando
nas lojas da baixa de Coimbra fragmentos das várias obras ficcionais da
escritora, que deverão ser colados nas vitrines para maior visibilidade.
Como refere uma das organizadoras do evento e simultaneamente a
curadora e mediadora das três sessões que paralelamente se dedicarão à
escritora, no Auditório Teolinda Gersão/ Parque Manuel Braga, Cristina
Robalo Cordeiro: «A nossa ideia era trazer a Teolinda e a sua obra para o
quotidiano da cidade, as ruas, as lojas... integrando-as nos gestos do dia a
dia de todos».
Quanto às três sessões, sempre às 19h, a primeira terá lugar em 22 de
Junho, subordinada ao tema Tinham combinado ir juntas - Da palavra à
imagem -, e incluirá a projeção do filme Vizinhas, com a presença da
realizadora Sofia Teixeira Gomes; dois dias depois, a 24, suceder-se-á a
conversa Psicanálise & Literatura, com Teolinda Gersão, Carlos Fiolhais e
Margarida Pedroso de Lima; por último, no dia seguinte, a 25,
proporcionar-se-á o encontro Ouvir era um segredo - Música & Literatura,
entre Teolinda Gersão e Jorge Vaz de Carvalho.
Ler a Teolinda Gersão por inteiro podia ser uma maratona instituída neste
próximo Verão, com ela nunca perdemos o gozo da leitura dado nunca
escrever o mesmo livro. Quase se diria “padecer” duma versatilidade
formal única na literatura portuguesa e certo é que a autora de O Silêncio,
1981, “não é a mesma” que a de Autobiografia Não Escrita de Martha
Freud, 2025, qualidade que não poderíamos atribuir à Agustina Bessa Luís
ou a Maria Velho da Costa, duas outras autoras com a densidade devida ao
prestígio que Teolinda angariou.
Em cada livro Teolinda Gersão tira um animal diferente da cartola e a
morfologia deste nasce da necessidade interna do que o livro diz e do
ângulo a partir do qual o quer dizer. Não há nela qualquer
experimentalismo gratuito, simplesmente cada um pede a sua
desembocadura formal, como rios diferentes que são. E eis-nos diante da
diversidade – só repito evidências –, O Silêncio e O Cavalo de Sol são dois
romances duma escrita lírica, intimistas, de longas frases ritmadas,
meditativo o primeiro, sensualíssimo o segundo, A Casa da Cabeça do
Cavalo é, no oposto formal dos primeiros, um livro coral, irónico,
carnavalesco, distanciado, e de um humor que benza-o Deus!; em A
Passagem temos uma estrutura polifónica, etc., etc.
Por outro lado, lê-la faz-nos recuperar a lição de George Sand, na
correspondência com Flaubert. Sand reconhece a superioridade artística de
Flaubert, mas rebate: «Entretanto, creio que lhe falta uma visão mais
definitiva e ampla da vida. Quero ver o homem tal como ele é. Ele não é
bom nem é mau: é bom e mau. Mas há algo ainda, a nuance, a nuance que
para mim é o objectivo da arte. (…) A verdadeira realidade é uma mistura
de beleza e feiura, de palidez e luminosidade». Assim, conclui Todorov,
que cita a correspondência, «aqueles que num determinado momento foram
chamados de realistas fizeram uma escolha que trai a realidade: eles
obedecem a uma convenção arbitrária que lhes exige representar
unicamente a face negra do mundo. O que os niilistas traem não é o Bem,
mas o Verdadeiro».
Não só isto é vital, como é evidente que Sand dá aqui um KO técnico a
Flaubert. Com Teolinda Gersão temos uma idêntica paleta humana
manejada com a mesma completude: a autora não tem pejo em revelar o
mal – lembremo-nos de inúmeros contos (como em Big Brother isn’t
watching you), mas não se compraz nele porque admite a presença do bem
com a mesma placitude, sem explorar oportunisticamente o que lhe daria
mais trunfos dramatúrgicos − o mal. Simplesmente as coisas (o bem e o
mal) acontecem à medida das incidências que ocorrem às personagens, que
são complexas. Um bom exemplo é a amoralidade do breve enlace sexual
entre Hugo e Joana, na novela Passagens, dois médicos que vêm do Porto a
Lisboa para a cremação da mãe de Hugo e que, sendo casados com outrem,
fazem a meio da viagem uma paragem numa pensão de estrada, com a
naturalidade de quem unicamente deixou que acontecesse o próprio
instante, sem mais juízos ou tardanças.
Em muitos dos seus livros, os conflitos, ou antes as ressonâncias, no seio
dos amantes são-nos mostradas sem prévio julgamento. Nem os tópicos
mais recorrentes − enunciados logo no primeiro romance, o da mulher não
reconhecida como sujeito pleno e o do silêncio, como marca frustre da
relação homem-mulher (e usado como forma de poder e de violência) −,
são pretexto para dar dos homens um retrato unidimensional, afinal
também eles presas das suas convenções e murchas versões de si próprios
por incapacidade de diálogo e de se abrir ao outro. É tudo mais complexo e
a medida humana é o inacabamento e o sortilégio que isso traz.
Talvez porque, como em Silêncio se sugere, cada ser humano seja uma
mónada sem poros para o exterior. Em inúmeros livros, no primeiro, em
Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo, em O Cavalo de Sol, em
Passagens, em A Cidade de Ulisses, o leitor é convidado a descer ao
metropolitano das almas e cada paragem nesse circuito corresponde ao
interior da consciência das personagens – no transito, o leitor contrai as
tensões próprias aos personagens que veem e sentem tudo o que os afecta
mas se sentem cativos numa caixa de “vidro” invisível. É uma questão
metafísica transversal ao quotidiano do género humano, sem que isto
impeça o frenético e prazenteiro lucilar da vida.
E sem que a autora abandone, como temática, o resgate da expressão das
mulheres canceladas que, aliás, vão crescendo no sentido da autonomia e
neste item a última, Martha Freud, é de uma ferocidade que deixará os
aficionados de Freud incomodados com as verdades que destapa. O que nos
traz outra particularidade de Teolinda Gersão, uma escritora aparentemente
delicada mas que leva sempre a água ao seu moinho, por incómodo que
isso seja. A delicadeza, nela, é antes justeza. Com a qual cumpre
magnificamente o estatuto de uma escritora que sabe resistir e dizer não ao
estado das coisas e aos pântanos societários.
Apesar de Teolinda ser sobretudo uma escritora do sim. Característica
claríssima em duas obras que testemunham uma “poética” em relação à
vida e à arte: Os Teclados e Passagens. No primeiro, a protagonista é Júlia,
pianista, e o romance alterna entre dois planos: o percurso de formação da
mulher numa sociedade que lhe é hostil, e a reflexão sobre o que é a arte e
para que serve num mundo esvaziado de sentido. E conclui Júlia: «… as
pessoas estavam desligadas, eram quando muito acidentes na paisagem. E
no entanto a música não provava o contrário? Na música tudo estava
ligado a tudo, a música era a arte de ligar. Nenhuma nota era isolada (…)
o acorde afirmava o princípio da harmonia. (…) O trabalho sobre o
teclado não era, justamente, deixá-la transparecer?»
Ressalta do livro uma ética que “transporta” a própria escrita e faz desta um
outro teclado onde se luta contra a entropia e o caos. Uma idêntica janela
para a esperança reflecte-se na terceira parte de Passagens quando diante
do fogo, na cremação da morta, os personagens abandonam o seu teatro
particular e dão voz a uma espécie de prédica cosmológica − numa ousadia
formal espantosa que rompe totalmente a moldura psicológica − pela qual
nos é anunciado que a vida, brevíssima e imperfeita, é um magnífico
pedestal para a beleza e a epifania.
Teolinda é uma autora maior das nossas letras e aconselhava estes seus
romances como entrada: Os Teclados, o divertidíssimo A Casa da Cabeça
do Cavalo e esse livro único e inclassificável, de fragmentos geniais, Os
Guarda-Chuvas Cintilantes. Ou, no mínimo, ande de autocarro, para trás e
para a frente, carreira 502.