Os Teclados
Para a pequena Júlia, cujo sonho é se pianista, o teclado é a revelação de que a natureza, o universo e o cosmos se ligam à experiência interior de cada um, e tudo o que existe faz sentido. Para uma escritora de meia idade, de quem Júlia lê por acaso uma entrevista, o mundo é caótico e absurdo, e as suas mãos no teclado (do computador) tentam obstinadamente (talvez em vão) encontrar-lhe harmonia e sentido. Esta visão sombria perturba Júlia, que se interroga, através do que lhe vai acontecendo, se a vida e o mundo têm ou não sentido, e se a arte pode oferecer uma saída.
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Um romance de aprendizagem em que a autora se ultrapassa a si própria. Uma reflexão filosófica sobre a relação entre a arte a vida, as ironias de uma e as partidas que a outra vai pregando. A ler devagar porque acaba muito depressa.
HELENA BARBAS, EXPRESSO
Numa narrativa breve, consegue emprestar à sua protagonista uma imensa profundidade psicológica. A metáfora do trapézio («não era o olhar do público que segurava a trapezista, tudo se passava entre ela e a corda do baloiço onde oscilava») não surge por acaso neste livro sublime e tão musical. Surge como se fábula fora. A de que o destinatário primordial da criação é o próprio criador, a de que a única legítima competição é a dele consigo mesmo.
RODRIGUES DA SILVA, JORNAL DE LETRAS
Tomando a música como medida de todas as coisas, Os Teclados de T.G. explora destinos por meio de metáforas da harmonia musical. Raramente na história da ficção estiveram tão unidas as duas vertentes da expressão artística: a palavra e a música.
FÁBIO LUCAS, JORNAL DA TARDE, São Paulo
Escutar-se, escutar os outros, o mundo, a natureza, o universo, o cosmos, escutá-los como música, escutá-los na música, é o pano de fundo de Os Teclados. Não a escuta como uma alternativa à visão, mas sim o equilíbrio entre ambas como alternativa a uma cultura inteiramente dominada pela imagem.
(…) A ideia da música como uma ordem cosmológico-racional domina a teoria de todas as culturas da antiguidade e é consagrada no quadrivium medieval. Nesse mesmo sentido, para Júlia, a música contrariava a ideia de que no mundo nada tivesse a ver com nada: “A música era a arte de ligar”. “Havia matemática no universo, a música era a sua forma audível e palpável?” A personagem responde afirmativamente, pois tem a vivência dessa anagogia ao tocar: “era o universo que pulsava através do seu corpo? quando julgava tocar livremente, era às leis de uma mecânica cósmica que obedecia?” Aqui parece estar próxima, e conscientemente, da definição leibniziana: “ a música é um exercício aritmético de uma alma que não sabe que calcula”.
Júlia pensa: “Havia relação entre a estrutura do cosmos e a música.” O texto explicita a ideia dos Antigos, para que remete uma tal abordagem da música: Pitágoras, Platão, Kepler. A música como “matemática pura”. Por isso mesmo, situando-se no domínio do “ethos”, a música “curava as almas, porque as fazia regressar à origem”.
Talvez seja esta insistência na dimensão cosmológico-racional, que privilegia na música a relação entre ordem e ethos, por oposição à relação entre linguagem e pathos, que permite a Teolinda Gersão especular sobre as relações estruturais entre a música e a escrita, surpreender, por exemplo, o carácter teleológico – a previsibilidade – da forma-sonata e compará-la à de uma narrativa ficcional.
MARIO VIEIRA DE CARVALHO, SABERES NO TEMPO, Revista da FCSH
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Prémio da Crítica (Centro Português da Association Internationale des Critiques Littéraires), 1999